terça-feira, 18 de setembro de 2018

Feminismo, sindicalismo e auto-organização: a luta e as conquistas de “Nova” no interior do RN


Nascida e criada no município de Catolé do Rocha/PB, em uma casa com 11 irmãos e sob o olhar de um pai rígido e conservador, Ivonilda de Sousa Lima, 53 anos, popularmente conhecida como “Nova”, moradora da Associação dos Produtores Rurais Agrovila Palmares, na zona rural do município de Apodi, RN, conta que em sua adolescência jamais imaginou que se tornaria uma liderança comunitária. Aos 18 anos mudou-se para Apodi, onde concluiu o ensino médio. Nesse período trabalhava numa lanchonete, estudava e fazia tarefas domésticas em casa, com a mãe. Ela conta que tinha vontade de participar de ações das organizações sociais e não podia porque o pai não deixava. E essa postura interferiu inclusive em seus estudos: “hoje eu não sou formada porque ele nunca aceitou eu ir de Apodi para Mossoró no ônibus, porque só ia homens, ele dizia. Ele era muito machista”, explica Nova, que em sua juventude sempre teve menos oportunidades por ser mulher.

Nova hoje é casada, tem três filhos, é a presidente do “Grupo de Mulheres Juntas Venceremos” e coordenadora da comissão de mulheres do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Apodi (STTR Apodi/RN). Mas a trajetória para chegar até essas conquistas foi árdua.

Aos 8 anos de idade Nova já trabalhava com os pais no roçado e com carvão, tentando conciliar a responsabilidade precoce e os estudos. A agricultora conta que sua vida começou a mudar a partir de sua aproximação com duas instituições: o sindicato e o Centro Feminista 8 de Março, instituição que tem várias iniciativas apoiadas pela ActionAid.

O primeiro contato, segundo ela, foi numa formação sobre feminismo realizada no ano 2000 através de uma parceria entre essas duas instituições. A partir desse momento Nova conta que passou a frequentar as reuniões da comissão de mulheres do STTR e sempre que podia participava de formações realizadas pelo Centro Feminista. Com o incentivo dessas duas instituições foi formado um grupo de mulheres na comunidade. A partir disso, de acordo com ela, as mulheres conquistaram mais liberdade e autonomia sobre suas vidas. Por ser a pessoa que sempre esteve mais próxima das instituições e por seu papel de mobilização em Palmares, Nova se tornou uma referência não só em sua comunidade, mas no município de Apodi. Fazer parte da diretoria do sindicato e contribuir para a transformação da vida de outras mulheres para ela é uma satisfação: “eu me sinto muito feliz em poder também estar ajudando a elas, sempre que eu vou pra um canto que elas querem saber de uma informação, que elas confiam em mim e me perguntam, e eu converso com elas, explico tudinho como é a importância do CF8 (Centro Feminista), do sindicato, das comissões, e eu ter a capacidade de falar, eu tenho o maior prazer de responder”, conta ela.

Além das formações, o Centro Feminista também atua em Palmares com projetos de assistência técnica rural, com incentivos à agricultura familiar e ao trabalho das mulheres.

Nova é agricultura, planta em seu quintal, cria galinhas e sua produção para consumo próprio ajuda a equilibrar a renda da família. O desejo dela era poder viver somente dessas atividades: “pra mim (o meu maior desejo) era se a gente pudesse viver só da agricultura familiar, produzindo e comercializando”. Ela revela que o esposo também gosta da agricultura, mas trabalha em uma firma porque nas condições atuais não dá para tirar o sustento só dessa atividade.

Para o futuro o anseio de Nova é que outras mulheres da comunidade também possam ocupar esses espaços e que através da auto-organização possam desenvolver mais atividades em conjunto: “O meu sonho era que a gente trabalhasse no quintal, mas que também o grupo tivesse um espaço coletivo pra gente trabalhar juntas”.

Apesar das conquistas, Nova reconhece que ainda há muito o que ser feito. Ela comenta que o machismo ainda é um agravante na vida das mulheres da comunidade e que os homens, muitas vezes desvalorizam seu trabalho e o de suas companheiras, mas ela não se deixa abalar: “eles não sabem qual a importância da gente estar ali, naquele momento, né?”, afirma ela, reforçando a importância da participação das mulheres na vida social e política da comunidade.

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