quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Abstrações de Natal

Por Angelo Castello Branco

O passado está fora de alcance. Repousa inerte no mesmo espaço dos sonhos. O passado e os sonhos são irmãos siameses. Pertencem ao mundo da abstração. A vida é abstração. Impossível recompor circunstâncias vividas e sensações recolhidas de um momento qualquer. Às vezes uma música, um odor casual, um livro ou uma paisagem podem até fazer uma ponte imaginária ao passado. Mas se por acaso encontrarmos algo intacto, logo percebemos que nós já não somos mais os mesmos.

Caminho pelo secular corredor do casarão cercado de árvores e ares onde vivi. Tudo está no lugar, mas não sou eu quem lá está. Ouço sons, o fogão de lenha está aceso, há uma saladeira de cristal vermelho sobre a mesa e pedras de gelo sobre as frutas cortadas em cubos minúsculos.

Ouço o barulho de mangas que despencam maduras e sinto o cheiro de pão assando, de grude afro indígena servido na folha da bananeira, de arroz doce e do café. Há cajus, carambolas, goiabas, pitangas, azeitonas e tamarindos. Sob o seu tronco majestático o jambeiro estende um tapete vermelho anunciando a proximidade do Natal. Era o melhor cartão de boas festas que recebia como um presente da própria natureza.

O tempo, no entanto, cumpriu o seu dever e encantou as árvores, o fogão, as sensações que varriam o corpo e a mente, e mais ainda, as pessoas daquele entorno. Os que partiram deixaram de ser vistos e os que ficaram buscam. Inutilmente o lugar à mesa e a pitanga azedinha que se abstraiu.

O espírito do Natal, no entanto, perdura e contagia na mágica presença alegre e inteligente dos filhos, do neto Felipe, e de amigos como vocês a mostrar que o século virou e os tempos mudaram, mas a alegria e o sentido da vida  permanecem intactos no curso do generoso milagre da existência.

No mais, sempre bom se perceber que uma garrafa de champanhe nos faz mais inteligente e nos deixa normal.

Feliz Natal a todos.


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