terça-feira, 7 de abril de 2020

A revolução na informação

Por Rosa Freitas*

Por essa, o velho Gutemberg não esperaria: ver sua fabulosa invenção do século XV perder o posto de maior meio de transmissão do saber. Gutemberg inventou um dos mais memoráveis instrumentos da revolução moderna: a imprensa. Muito além da engenhoca adaptada do arado, a facilidade que criou foi fundamental para a difusão do conhecimento e da informação por mais de 500 anos.

O poder da palavra foi transmitido e imortalizado, amplamente distribuído e usado das mais variadas formas. No século XIX, as notícias, os anúncios, fofocas e contos chegaram a um número cada vez maior de letrados. A máquina se confundiu com a informação e quando falamos "imprensa" vem a nossa mente um grande aparato econômico e político de criação de conteúdo.

Seu uso? Oh, serve a tantas coisas.... para o bem ou para o mal, à direita, à esquerda, o que não é, é neutra.

Há um tempo, os cientistas políticos e sociólogos perceberam seu poder. Cooptado por setores econômicos, os jornais, revistas e magazines criaram as demandas para seus produtos, ditaram modas e refizeram costumes.

Habermas criticou duramente o papel da imprensa comercial na transmissão da informação. Ao precisar de um anunciante, ela não pode "dizer" o que precisa ser dito. Sob a ótica da experiência cotidiana, gostoso era receber o jornal todos os dias nas portas das casas ou nos finais de semana.

Ler os editoriais e se indignar ou aplaudir, no banco da praça ou do sofá. Antes do café da manhã, para não sair de casa sem saber os assuntos do dia.

O jornal impresso mudou, não sei se somente a forma, já que nessas relações necessárias entre o meio e o conteúdo, algo se perde ou se ganha.

O que se perde parece que estamos descobrindo a cada dia. O jornaleiro do bairro que fechou, o idoso com seu jornal no banco da praça deixou de existir.

Somos ainda a última geração tátil. Precisamos ainda tocar cada coisa, para sentir que ela exista. Talvez um São Tomé com roupas do século XXI em transição para Android.

Mas, definitivamente, os últimos sapiens desse tipo.

É através desse pequeno instrumento portátil, o celular, que temos um mundo aberto e em tempo real. É tanta notícia, que a novidade se perde no instantâneo. Somos consumidores de informações. Antes era necessária uma grande máquina de impressão para fazer uma notícia circular.

Hoje, basta a ideia, uma tela, um perfil. Dos grandes aparatos de imprensa aos pequenos blogs, a imprensa e a informação se confundiram. Meio e conteúdo são um só.

O mundo virtual é o real e não material, como ensinou Pierre Levy. É um mundo fluído e líquido. Se a inteligência artificial consegue identificar padrões e manipular as sensações, as revoluções também se fazem a partir das pontas dos dedos, como a primavera árabe.

Por mais estranho que pareça, na sociedade informacional de economia criativa são possíveis canais com independência na proposição de conteúdo. É essa contradição da dialética, cada coisa traz dentro de si o seu próprio mal. São os blogs de jornalistas independentes, youtuberes, as aulas virtuais etc.

Nada pode conter seu fluxo. Admirável mundo novo, temos!  Assim, o velho Gutemberg vive a cada clique, porque deixou de ser a velha engenhosa para ser ideia.

*Professora universitária e advogada


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