Cláudio Oliveira - Repórter
Os municípios do Rio Grande do Norte terão R$ 2,3 bilhões à disposição até 2032, com a possibilidade de investir em áreas essenciais como saúde, educação, infraestrutura e obras públicas. A previsão é da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), baseada na ampliação da Desvinculação de Receitas (DRU), prevista na Emenda Constitucional nº 136/2025, conhecida como PEC da Sustentabilidade, que foi promulgada nesta semana. O mecanismo permite que 50% das receitas que antes estavam vinculadas a fundos específicos ou destinadas a gastos obrigatórios sejam redirecionadas para outras prioridades. Esse limite cairá gradualmente para 30% a partir de 2027.
Além disso, superávits financeiros — valores remanescentes nos fundos ao final
do ano — poderão ser movimentados para despesas urgentes. A CNM estima que a
economia para os fundos de aposentadoria das cidades potiguares chegará a R$ 1
bilhão até 2055. Na prática, isso significa maior autonomia para as prefeituras
decidirem onde aplicar o dinheiro.
Uma cidade que arrecada mais do que gasta em determinada taxa, como iluminação
pública, por exemplo, poderá utilizar o saldo para reformar escolas, comprar
medicamentos ou pavimentar ruas. “Esses recursos dão condições para que os
municípios mantenham serviços essenciais, planejem investimentos e retomem
obras paradas”, destacou o presidente da Confederação Nacional dos Municípios,
Paulo Ziulkoski.
A entidade prevê que as mudanças introduzidas pela emenda representarão uma
economia agregada de cerca de R$ 1,5 trilhão ao longo de até 30 anos nos
municípios do país.
Outro ponto central da nova lei é o alongamento das dívidas previdenciárias. No
RN, 31 municípios com Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS) poderão
parcelar débitos em até 300 meses, com possibilidade de estender para 360 meses
caso a parcela ultrapasse 1% da Receita Corrente Líquida (RCL). A troca do
indexador da dívida, que deixa de ser a Selic e passa a ser calculado pelo IPCA
somado a juros reais menores, deve gerar economia de R$ 1,1 bilhão até 2030 nesses
municípios, segundo a CNM.
O economista Helder Cavalcanti Vieira diz que o parcelamento das dívidas
previdenciárias e a troca do indexador podem ter impactos significativos.
“Permitem uma melhor gestão dos recursos financeiros e ampliam investimentos,
geração de empregos e qualidade de vida”, analisa.
Já nas cidades que contribuem para o RGPS (INSS), o alívio também será
significativo: R$ 853,9 milhões em abatimento de juros, multas e encargos e
mais R$ 2,3 bilhões diluídos até 2055. “Sem dúvida, acontecendo efetivamente o
cumprimento dos preceitos previstos, os entes públicos podem ampliar seus
investimentos, trazendo benefícios diretos à sociedade”, destacou o economista.
Os municípios brasileiros atualmente possuem uma dívida previdenciária de R$
160 bilhões, segundo estimativas da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional e da
Receita Federal do Brasil. A entidade calcula que o conjunto de medidas da
emenda, o corte de juros e multas e a correção monetária durante todo o período
poderá trazer uma economia bilionária até o final do período de 30 anos,
divididos entre a redução imediata de juros, multas e encargos (redução de R$
41 bilhões da dívida), a economia acumulada em redução de parcelas até 2055
(incremento de R$ 83 bilhões da dívida) e a economia com a alteração do
indexador por 30 anos (redução de R$ 545 bilhões da dívida).
Nova regra
para pagamento de precatórios
As novas regras para pagamento de precatórios — dívidas
judiciais que os municípios precisam quitar — também representam um alívio
importante com a PEC 136/2025. Com o limite de comprometimento da Receita
Corrente Líquida variando entre 1% e 5%, as parcelas se tornam mais compatíveis
com os orçamentos municipais.
A CNM contabiliza que 45 municípios do RN terão uma economia de R$ 141 milhões
no primeiro ano e de R$ 722 milhões ao longo do período de aplicação das
regras, chegando a R$ 1,26 bilhão até 2055. O economista Ricardo Valério
explica que os precatórios vinham se acumulando e se tornando impagáveis, mas a
PEC traz uma solução de longo prazo. “Com a possibilidade de parcelamento em
até 360 meses, bem como para os débitos da Previdência em até 300 meses, os
beneficiários terão previsibilidade de recebimento, e os governos conseguirão
organizar suas finanças, retirando essa verdadeira ‘bola de neve’ das dívidas
judiciais”, pontua.
O economista Helder Cavalcanti Vieira também reforça que o novo indexador (IPCA
+ 2% ao ano) torna os valores mais previsíveis e facilita o planejamento. “A
obediência aos critérios estabelecidos é fundamental para evitar o efeito ‘bola
de neve’, que pode ocorrer quando os pagamentos não são feitos de forma
ordenada e previsível, levando a um endividamento crescente e insustentável”,
alerta Cavalcanti.
Isso porque, quando houver atraso no pagamento, as regras ficam suspensas e o
Tribunal de Justiça poderá determinar o sequestro de contas, impedindo o ente
federativo de receber transferências voluntárias, com chances de o prefeito ou
governador responder por improbidade fiscal e administrativa.
O presidente da Federação dos Municípios do RN (Femurn), Babá Pereira, prevê
que os municípios cumprirão as regras e conseguirão manter a diligência com a
PEC em vigor. “A gente orienta que os municípios continuem priorizando, além da
folha de pagamento, a saúde, o cumprimento no mínimo de 15% com a saúde, a
educação, a assistência social e também possam investir em obras,
principalmente na agricultura, para gerar emprego e renda. Não vejo risco de os
municípios deixarem de cumprir isso aí”, afirmou.
Em nível estadual, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJRN) assinou,
em junho passado, um Termo de Conciliação para que o Executivo possa quitar um
aporte financeiro de 2024 e 2025 no valor de R$ 108.473.144,35, em sete
parcelas mensais. Além disso, mensalmente será calculado o valor do aporte
referente ao plano de pagamento de 2025.
Procurado para comentar sobre os efeitos da PEC nas finanças estaduais, e se
pretendia rever esse cronograma, o Governo do Estado não enviou respostas à
reportagem até o fechamento desta edição.
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