Foto: do autor. Centro de Apodi. Pipeiros se encontravam
em reunião na prefeitura.
Apodi, água para que te quero? Apodi com seu território
municipal de destaque no mapa do Rio Grande do Norte, o que representa 3,0344%
da superfície estadual, e também, no potencial do seu lençol freático potável,
além da barragem de Santa Cruz de Apodi, dos rios intermitentes Apodi, Umari e
a lagoa, que no passado sucumbia a sede nas estiagens, nos faz receber a
denominação de – Capital da Água Mineral. Orgulho bairrista, não?
Tem mais, o potencial hídrico subterrâneo, da chapada,
segundo os mais velhos diziam que é o equivalente ao volume d’água de duas
baias da Guanabara. Não é à toa que grande obra de canalização, em fase de
conclusão, partindo do poço do sítio Forquilha vai abastecer a cidade de
Mossoró.
Oficialmente para tanto existe decreto, a Lei Ordinária
nº 10.710/2020, reconhecer tal recurso hídrico no fornecimento de água mineral,
por ser grande exportadora, abastecendo várias cidades do Oeste
norte-rio-grandense e de outros estados próximos. Nas fases críticas das secas
avassaladoras, atingindo os rebanhos de gado bovinos, caprinos, ovinos e o
plantio, o pior de tudo é a falta d’água para saciar a sede humana, Apodi é a
fonte supridora. Contudo na lei tudo é fartura, bonito e maravilhoso por
ressaltar o valor de Apodi, realmente, onde se veem dezenas de carros pipas
pela cidade mudando o visual comum do fluxo rodoviário e adutora interligando
cidades circunvizinhas. “Dai água a quem tem sede” o Apodi exerce este ato de
caridade bíblico, mas cede no tocante a petição “E venha a nós, e ao nosso
reino nada” ou melhor esclarecendo, toma lá, me dê cá! Encha o pote alheio, mas
deixe o meu cheio. Mas, água para que te quero mesmo, se na própria cidade o
sistema de fornecimento d’água costuma entrar em pane trazendo prejuízos e
incômodos para parte da população por má distribuição ou pela falta dela nas
torneiras das casas por vários dias consecutivos. É ai, de um lado, muitos de
condições se utilizam da alternativa de comprar água aos pipeiros, além de
pagar à CAERN mensalmente, por outro lado, já que os que não podem pagar por
corroer o parco orçamento nem se socorrer da lagoa pode, não serve para o
consumo humano, como antes. Ora, a problemática se arrasta por longo tempo,
desde que a Companhia de Água e Esgotos do Rio Grande do Norte – CAERN, empresa
estatal, se estabeleceu no Apodi, por volta de 1975, se continua com a mesma
‘solitária’ caixa d’água suspensa, armazenando o mesmo volume de água. A cidade
cresceu e por conseguinte o número de habitantes aumentou significativamente,
nos anos 70 o censo (IBGE) registrava 21.056 habitantes, no último censo, 2024,
se conta 37.390 viventes consumindo água, sem a construção de novas caixas
suspensas para armazenar e no eventual enguiço dos motores-bombas não afetaria
a distribuição pelo o acúmulo reserva da água. Até então as alternativas
implementadas pela companhia estatal, não priorizando por caixas d’água, não
mostrou ser ação profícua, a solução não veio conjuntamente.
No mundo de hoje vivenciamos os avanços tecnológicos e
não vem ação estruturante para o sistema de abastecimento de Apodi, sai e entra
governantes e tudo continua como antes no quartel de Abrantes, emperram o
progresso e a qualidade de vida dos apodienses.
Descaso com o líquido fonte da vida que até foi tema da
Campanha da Fraternidade, do ano de 2004, em defesa daqueles privados do
consumo de água de qualidade, vale transcrever parte do objetivo geral da C.F.:
“...é conscientizar a sociedade de que a água é fonte da
vida, uma necessidade de todos os seres vivos e um direito da pessoa humana, e
mobilizá-la para que esse direito à água com qualidade seja efetivado para as
gerações presentes e futuras”.
Volto a repetir – água para que te quero se não
usufruímos o quanto e como se deveria pôr a termos em abundância? Ainda, o que
a CAERN nos dá em recompensa por monopolizar o nosso riquíssimo manancial? O
que o Apodi tem ganhado em troca? Respondo eu, se não um singelo título no
papel já esquecido e amarelado em algum diário oficial!
O sistema de fornecimento d’água é um tanto precário por
não ser suficientemente capaz de atender à cidade, no Apodi nunca deveria
faltar água nas torneiras das casas por mais de 24 horas, água se tem, o que
falta é a estrutura física com reserva de grandes volumes d’água para comportar
o consumo nos momentos de pane do maquinário. Mas o que fazer? Municipalizar o
abastecimento à exemplo de outros municípios Brasil à fora, para tanto
precisaríamos de um chefe do executivo de pulso forte ou se não, pelo menos
para que se exija o que nos falta para se ter um bom atendimento, com isso, o
Apodi fazendo jus ao título que lhe fora dado. Embora os prós e os contras à
municipalização da companhia de água surgirão, melhor se aprofundar na causa e
se teríamos ônus inviáveis ou bônus com retorno ao município a médio ou a longo
prazo, claro que há necessidade de um estudo técnico/econômico por uma empresa
idônea.
Não vamos esquecer que a CAERN tem uma grande dívida para
com Apodi desde 1975, juntamente com a PLANASA, BNH e Ministério do Interior
por ter escolhido Apodi para ser a milionésima cidade do Brasil a ser saneada
(ver livro: Atuação Parlamentar do Deputado Dalton Cunha, 1977), de lá pra cá,
relegaram a tão sonhada obra e ficou só, mais uma vez, no papel. 50 anos se
passaram, nem lembranças o apodiense tem mais do tal fato noticioso. Esse fato
real foi anunciado amplamente, eu sou testemunha, nos cinemas de Natal, antes
da projeção da película se passava trailer dos gols dos clássicos do futebol, o
próximo filme a entrar em cartaz e noticia de grande repercussão nacional, e lá
assistir a matéria com cenas da fachada da igreja e vários personagens da
cidade. Quanto ao decreto, da sua publicação, que denominou Apodi Capital da
Água Mineral, 5 anos transcorreram, aliás, precisamente se aniversaria neste
dia 23 de março do corrente ano, nada amenizou, o caos da falta d’água é fato
corriqueiro vivido por parcelas da população.
Declinando para o
lado cômico, para amenizar a situação, que é problemática e séria, se não fosse
irônico, seria trágico demais, entremeada de paradoxo que serviu até por parte
do saudoso Silvio Santos no seu famoso programa de auditório, televisivo,
lançou a seguinte pergunta qual a única cidade do Brasil que jumento toma banho
com água mineral, e a resposta foi – Apodi. É trágico, a cidade conviver com a
falta d’água, lagoa poluída; mais é risível, por se dá banho com água mineral
em animais, quando se falta em milhares de cidades. Mesmo que seja normal para
nós que a temos em fartura, mas há quem vaticina que a terceira guerra mundial
será pela busca da água!
Decerto a CAERN era para ter construído caixas d’água
suspensas por diversos bairros surgidos nas últimas décadas, ao invés de se
optar por outras vias mais econômicas, mas não surtiu efeito esperado. O que
nos falta aqui é o que fizeram muito bem em Mossoró com inúmeros reservatórios
suspensos de grande capacidade de volume d’água. Caso contrário se insista no
como estar, no descaso, devemos propor lei denominando Apodi Capital da lagoa
poluída. Não é um contraste, um paradoxo, água mineral e água poluída por falta
de saneamento?
A CAERN por obrigação deveria nos recompensar priorizando
o abastecimento d’água sem interrupção e entregando o saneamento básico da
cidade juntamente com a prefeitura e assim, zelar os nossos recursos hídricos
nos dando qualidade de vida e saúde. O abastecimento de água é um direito
fundamental, está na Constituição Federal. Para se conseguir de forma plena,
resta-nos indignarmos e lutar!
Não se entristece não meu caro conterrâneo com a
situação, há ainda poetas para nos entreter e dizer que você não está só:
“Ontem estava sonhando
Que muita sede sentia
Corri para beber água
A geladeira tava vazia
Faltava no pote e na caixa
Foi grande agonia”.
(poeta Abaeté).
29/04/25
Nurim de Bugue
