O Natal deixa as pessoas mais leves, mais sensíveis e
extremamente emocionadas. Mexe fortemente com os sentimentos. Em mim, provoca
um tremendo saudosismo. Sinto falta dos meus pais Gastão e Margarida,
fortemente contagiados pela festa cristã.
Quem matava o peru para a ceia natalina, comprado na
feira e colocado por 15 dias num sistema de engorda no quintal da casa, era
papai, com uma habilidade impressionante.
Não sai da minha mente, como um filme reprisado a cada
instante, cenas levadas pelo vendaval do tempo, papai costurando o papo do
peru, assistido pacientemente por Jocelina, a Joça, que quase não enxergava.
Usava um óculos fundo de garrafa, um vestido até a ponta do pé, quase não tinha
dentes, mas falava feito uma matraca.
Para nós, Joça era a Boca Mole, mas odiava o apelido.
Rogava a todos os santos e também ao xangô, frequentadora assídua, para não ser
tratada assim. Brincadeira! Joça era uma queridona, uma segunda mãe, irmã de
criação e estimação de mamãe. Todos os dias saía do São Braz, bairro onde
morava, para ajudar mamãe, a quem tratava por Mãe Dó.
Joça enfiava a faca no pescoço das galinhas. Uma, duas,
até três galinhas de capoeira, que também iam ser devoradas na ceia natalina.
Eu só via o sangue jorrar pelo chão. Cena comovente, que fazia Joça chorar.
Natal também era tempo de paçoca, batida no pilão arcado
por papai, que caprichava no tempero. Usava bastante cebola e farinha. A gente
comia com as mãos com tamanho apetite. Éramos esfomeados. Papai nunca nos
deixou passar fome, mas Sertão não tem farturas.
A fome no Sertão vem da dor da seca, da miséria e do
abandono. A resiliência do povo contrasta com a crueldade da realidade, onde o
prato vazio é um símbolo de um “holocausto silencioso”. A vida vira mera
sobrevivência e a esperança na chuva e na solidariedade se mistura à frustração
com a falta de atenção política.
O Sertão nunca vai acordar do pesadelo da fome, porque os
políticos dormem eternamente em berço esplêndido. Papai lia muito os clássicos
sertanejos. Aprendi com ele a devorar Guimarães Rosa, que disse que Sertão é
onde o pensamento da gente se forma mais forte do que o lugar. E que viver é
muito perigoso.
Para Joça, a fome que rodeou sua casa de taipa no São
Braz era assombração. Ela pariu muito. Perdeu uma leva de filhos para a seca.
Não morriam da morte matada. Morriam de diarreia, que naquele tempo tirava a
vida das crianças pobres no Sertão.
Natal, para nós, uma família gigantesca – nove filhos e
agregados sem fim – era uma noite de sonhos. E de reflexões. Político, adepto
da oratória, papai fazia o seu discurso com os olhos marejados e o coração
dilacerado. A Deus, agradecia o pão de cada dia e só pedia saúde. “Com saúde, a
gente vence todas as intempéries”, dizia.
Papai era um poeta, um ser iluminado, apaixonado pela
vida e pela família, seu maior orgulho. Mamãe não vinha com sermões. Vinha com
sua taça de vinho nas mãos, alegre, jorrando felicidade. Olhava em direção a
cada um dos filhos e dizia, como se fosse uma saudação com a pureza e a beleza
da sua alma, que latejava amor: “Quer vinho, venha”.
Doces recordações, como diz uma canção de Roberto Carlos.
O Natal no Sertão nos lembra que a simplicidade da manjedoura tem a mesma força
da caatinga que insiste em florescer: a vida sempre encontra um caminho.
A maior magia do Natal, seja na cidade ou no Sertão, não
está nos presentes, mas na presença e no carinho que aquecem a alma e
fortalecem a fé.
Diante de tantas recordações, só me resta desejar a todos um Feliz Natal, numa celebração que estende um abraço a todo o povo de fé, lembrando que o Natal é o céu que veio à terra, é Jesus dentro de cada um de nós com esperança e fé.
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