Na virada de cada ano, cresci ouvindo que janeiro e
fevereiro são meses perdidos no calendário, porque a corrida dos 365 dias só
começa após o carnaval. Até lá, nada se resolve. Amigos, não se acham. Tiram
férias. Políticos, fogem do Brasil. Vão desfrutar o frio, os vinhos e os
encantos da Europa.
Tem gente com calendário anual de dez meses. Pulam
janeiro e fevereiro, principalmente se o Carnaval acontece entre 15 e 20 de
fevereiro. Esses ou são muito bem aquinhoados ou se enganam. Afinal, resultado
não nasce de calendário, nasce de quem começa antes sem esperar o fim da folia.
O Carnaval é frequentemente retratado na literatura como
um tempo de suspensão da realidade, inversão de papéis e liberdade, um
contraponto necessário ao cotidiano. Em Pernambuco, não há carnaval de quatro
dias.
As prévias já começam em janeiro e Olinda vira uma
passarela sem fim. Tem frevo todos os dias. E quando acaba o reinado momesco
ainda tem o Bacalhau do Batata em plena Quarta-feira de Cinzas. Haja energia!
Já fui de um tempo assim: Carnaval encerrado, hora de
focar nos planos que ficaram pausados. A alegria do Carnaval é muito boa, mas a
realização dos sonhos é melhor ainda. A expressão “o ano só começa depois do
carnaval” é muito popular no país. Diz respeito a pessoas que adiam seus
compromissos e planos para depois do feriado.
Existem os que dizem que tudo começa depois do carnaval.
Existem os que pensam que isso é uma grande bobagem. Para quem, como eu, que
tenho que matar um leão todos os dias no embate ante as adversidades, a vida
começa todos os dias, em um repetido ritual. Isso exige fé e coragem.
Estou numa fase da vida de enxergar tudo diferente do
meramente convencional. Já passou da hora, entendo, de as pessoas perceberem
que não são os grandes eventos que trazem a felicidade tão desejada. Também não
são as férias, feriados, carnaval ou fins de semana que tiram o vazio. Chegou a
hora de esperar demais disso tudo e começar a esperar mais em si mesmo.
A frase “o ano só começa depois do Carnaval” pode até
funcionar na brincadeira, mas para negócio já começou faz tempo. Por isso, este
momento é bom para entender como ficaram as finanças do início do ano, escolher
poucas prioridades claras para os próximos meses e criar uma rotina mínima de
gestão, em vez de deixar tudo pra “quando sobrar tempo”. Quanto mais cedo você
olhar pra isso, mais preparado o negócio fica para aproveitar as oportunidades
que vão surgir ao longo do ano.
No conto “Restos do Carnaval”, Clarice Lispector aborda a
festa como uma mistura de euforia infantil e melancolia da realidade. Ela
contrasta a fantasia da folia com a necessidade de se salvar da tristeza,
descrevendo a vida real como o “desencantamento” após o carnaval, onde a
criança fantasiada de rosa volta a ser apenas um “palhaço pensativo” na rua.
Jorge Amado, por sua vez, retratou o Brasil com uma
mistura única de realismo social e lirismo popular. Em sua obra, especialmente
no romance de estreia “O País do Carnaval” (1931), revela que o carnaval é
frequentemente visto não apenas como festa, mas como um reflexo das
contradições brasileiras: a alegria superficial escondendo a dura vida real.
O país do carnaval é o país das contradições, onde a
fantasia da festa tenta mascarar as dificuldades da vida real. O carnaval é a
máscara que o brasileiro usa para esconder a sua dor, mas é também a sua
maneira de celebrar a vida e a esperança.
“O País do Carnaval”, escrito quando Jorge Amado tinha
apenas 18 anos, já trazia esse olhar crítico sobre como o brasileiro usa a
festa para esquecer os problemas, mas é na “Bahia de todos os santos” que ele
encontra a verdadeira essência da vida real, no cotidiano do povo.
Chegou, portanto, para muitos, o novo ano. Tudo começa a
partir de amanhã quando não se ouve mais o som do último bandolim. Prefiro a
filosofia de Guimarães Rosa: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim:
esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que
ela quer da gente é coragem.”
Blog do Magno Martins
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