domingo, 22 de fevereiro de 2026

A crônica domingueira

Na virada de cada ano, cresci ouvindo que janeiro e fevereiro são meses perdidos no calendário, porque a corrida dos 365 dias só começa após o carnaval. Até lá, nada se resolve. Amigos, não se acham. Tiram férias. Políticos, fogem do Brasil. Vão desfrutar o frio, os vinhos e os encantos da Europa.

Tem gente com calendário anual de dez meses. Pulam janeiro e fevereiro, principalmente se o Carnaval acontece entre 15 e 20 de fevereiro. Esses ou são muito bem aquinhoados ou se enganam. Afinal, resultado não nasce de calendário, nasce de quem começa antes sem esperar o fim da folia.

O Carnaval é frequentemente retratado na literatura como um tempo de suspensão da realidade, inversão de papéis e liberdade, um contraponto necessário ao cotidiano. Em Pernambuco, não há carnaval de quatro dias.

As prévias já começam em janeiro e Olinda vira uma passarela sem fim. Tem frevo todos os dias. E quando acaba o reinado momesco ainda tem o Bacalhau do Batata em plena Quarta-feira de Cinzas. Haja energia!

Já fui de um tempo assim: Carnaval encerrado, hora de focar nos planos que ficaram pausados. A alegria do Carnaval é muito boa, mas a realização dos sonhos é melhor ainda. A expressão “o ano só começa depois do carnaval” é muito popular no país. Diz respeito a pessoas que adiam seus compromissos e planos para depois do feriado.

Existem os que dizem que tudo começa depois do carnaval. Existem os que pensam que isso é uma grande bobagem. Para quem, como eu, que tenho que matar um leão todos os dias no embate ante as adversidades, a vida começa todos os dias, em um repetido ritual. Isso exige fé e coragem.

Estou numa fase da vida de enxergar tudo diferente do meramente convencional. Já passou da hora, entendo, de as pessoas perceberem que não são os grandes eventos que trazem a felicidade tão desejada. Também não são as férias, feriados, carnaval ou fins de semana que tiram o vazio. Chegou a hora de esperar demais disso tudo e começar a esperar mais em si mesmo.

A frase “o ano só começa depois do Carnaval” pode até funcionar na brincadeira, mas para negócio já começou faz tempo. Por isso, este momento é bom para entender como ficaram as finanças do início do ano, escolher poucas prioridades claras para os próximos meses e criar uma rotina mínima de gestão, em vez de deixar tudo pra “quando sobrar tempo”. Quanto mais cedo você olhar pra isso, mais preparado o negócio fica para aproveitar as oportunidades que vão surgir ao longo do ano.

No conto “Restos do Carnaval”, Clarice Lispector aborda a festa como uma mistura de euforia infantil e melancolia da realidade. Ela contrasta a fantasia da folia com a necessidade de se salvar da tristeza, descrevendo a vida real como o “desencantamento” após o carnaval, onde a criança fantasiada de rosa volta a ser apenas um “palhaço pensativo” na rua.

Jorge Amado, por sua vez, retratou o Brasil com uma mistura única de realismo social e lirismo popular. Em sua obra, especialmente no romance de estreia “O País do Carnaval” (1931), revela que o carnaval é frequentemente visto não apenas como festa, mas como um reflexo das contradições brasileiras: a alegria superficial escondendo a dura vida real.

O país do carnaval é o país das contradições, onde a fantasia da festa tenta mascarar as dificuldades da vida real. O carnaval é a máscara que o brasileiro usa para esconder a sua dor, mas é também a sua maneira de celebrar a vida e a esperança.

“O País do Carnaval”, escrito quando Jorge Amado tinha apenas 18 anos, já trazia esse olhar crítico sobre como o brasileiro usa a festa para esquecer os problemas, mas é na “Bahia de todos os santos” que ele encontra a verdadeira essência da vida real, no cotidiano do povo.

Chegou, portanto, para muitos, o novo ano. Tudo começa a partir de amanhã quando não se ouve mais o som do último bandolim. Prefiro a filosofia de Guimarães Rosa: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

Blog do Magno Martins


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