Do jornal O Globo
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aposta na tentativa de
replicar o “manual Bolsonaro” na corrida pelo Palácio do Planalto, mas esbarra
em obstáculos como o alcance mais limitado nas redes sociais na comparação com
o pai, um controle maior pela Justiça Eleitoral do conteúdo que circula nas
plataformas e a rejeição acentuada. O parlamentar tem reciclado promessas
feitas pelo ex-presidente, que não foram cumpridas.
A estratégia leva em consideração pilares da campanha
vitoriosa de Jair Bolsonaro em 2018, quando rompeu padrões no marketing
político, e parte do que ocorreu na tentativa fracassada de reeleição quatro
anos depois. Compõem a lista a comunicação direta pelas redes sociais, estímulo
a doações pulverizadas, mobilização de rua e uso de símbolos voltados ao
eleitorado conservador e religioso.
A diferença, segundo aliados, está na tentativa de
profissionalizar o plano e corrigir erros identificados nos últimos ciclos
eleitorais, como falhas de coordenação, falta de foco no Nordeste e lacunas no
discurso econômico.
Em 2018, com pouco tempo na televisão, Bolsonaro
concentrou a campanha nas redes sociais, especialmente no WhatsApp. O ambiente
de baixa regulação das plataformas digitais e a rejeição à política tradicional
funcionaram como catalisadores.
Já em 2022, no exercício do cargo, o bolsonarismo adaptou
a estratégia: parte da mobilização migrou para o Telegram, as transmissões ao
vivo se tornaram rotina e os atos de rua, especialmente as motociatas, ganharam
força.
É esse repertório que Flávio tenta reencenar. Ele
intensificou as lives no YouTube, inspiradas no formato adotado pelo pai
durante o mandato, como instrumento para falar diretamente com apoiadores. Nos
bastidores, a tática é tratada como uma atualização do “manual Bolsonaro”.
“Quando voltar de viagem, vou sentar com Rogério Marinho
(senador e coordenador da pré-campanha) para bolar as estratégias daqui para
frente. Nosso primeiro evento deve ser em São Paulo”, disse Flávio ao Globo.
No giro pelo exterior, Flávio passou por Israel, onde foi
batizado no rio Jordão. A viagem incluiu participação na Conferência
Internacional de Combate ao Antissemitismo, com presença do primeiro-ministro
Benjamin Netanyahu. Aliados descrevem a iniciativa como tentativa de reforçar a
identidade religiosa do pré-candidato, dialogar com o eleitorado evangélico e
sinalizar alinhamento com uma agenda internacional da direita.
Nova tentativa
Flávio tem resgatado promessas feitas por Bolsonaro em
2018, mas que ele não entregou durante seu governo. Entre elas, a transferência
da embaixada brasileira de Israel de Tel Aviv para Jerusalém, possibilidade que
gerou reações diplomáticas; a redução da maioridade penal; e a ampliação do
“excludente de ilicitude”.
Apesar do esforço para imprimir ritmo e ampliar a agenda,
aliados reconhecem entraves relevantes — um deles é a estrutura digital.
Enquanto Bolsonaro mantém cerca de 27 milhões de seguidores no Instagram,
Flávio tem pouco mais de 8 milhões, e Lula, 14,4 milhões. A avaliação interna é
que a força orgânica do bolsonarismo, sozinha, não sustenta uma campanha
nacional competitiva.
Além disso, a Justiça Eleitoral apertou as regras já na
última campanha presidencial, com a retirada de uma série de conteúdos do ar, e
agora debate as normas para 2026, incluindo diretrizes para o uso de
inteligência artificial.
Flávio também enfrenta dificuldades para montar palanques
estaduais robustos e busca um marqueteiro capaz de reduzir sua rejeição.
Pesquisa Genial/Quaest deste mês indicou que o índice dos que dizem não votar
nele de jeito nenhum caiu de 60% para 55%, mas segue acima do registrado pelo
governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, visto por setores da direita como
alternativa mais competitiva.
“Nós vamos potencializar os acertos, que foram muitos, e tentar não repetir os erros, por menores que tenham sido. A eleição de 2022 foi decidida por menos de dois pontos percentuais. Temos um laboratório recente”, afirmou Marinho.
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