Entidades confirmaram a suspensão de R$ 38,8 bi em
investimentos por parte das empresas, que avaliam migrar os aportes | Foto:
Adriano Abreu
Suspensão de R$ 38,8 bi no NE (2025-26) acende alerta no
setor renovável: cortes de geração, falta de transmissão, insegurança
regulatória e poucos incentivos travam avanços. No RN, há risco de perda de
competitividade, fuga de capital, demissões e adiamento de projetos, embora
empresas ainda demonstrem interesse na região.
O presidente da Associação Potiguar de Energias
Renováveis (Aper), Williman Oliveira, aponta que a desistência das empresas
representa um cenário negativo para o RN e pode estar atrelada a múltiplos
fatores. É o caso da infraestrutura insuficiente de linhas de transmissão para
o escoamento da energia produzida na região, além da falta de incentivos
fiscais para o crescimento da demanda por fontes renováveis no Estado.
“[Acredito que isso aconteceu] muito pela dificuldade
quando [as empresas] têm que bloquear a sua geração, gerando um prejuízo
incalculável para quem acreditou que teria investimentos em expansão de rede e
incentivos para o consumo local”, aponta Williman Oliveira.
O diretor-técnico regulatório da Associação Brasileira de
Energia Eólica (ABEEólica), Francisco Silva, observa que a entidade não dispõe
de dados relativos ao cancelamento de investimentos em 2025 e 2026 no RN e
Nordeste. Ele reconhece, contudo, que ao longo dos últimos anos a suspensão de
investimentos pode ser considerável e tem como principal motivador o
curtailment.
“Sabemos que todo o mercado que investe em energia eólica
e solar fotovoltaica centralizada está reavaliando os seus investimentos. Hoje
esses geradores estão ficando com uma incerteza que inviabiliza a possibilidade
de construir novos empreendimentos. Então dá para dizer que todos os geradores
estão verificando qual é o melhor momento para se investir novamente nesse
mercado, tendo em vista o tamanho da incerteza, especialmente por conta dos
cortes de geração”, aponta o diretor.
O presidente do Centro de Estratégias em Recursos
Naturais e Energia (Cerne), Darlan Santos, alerta para o risco de fuga de
investimentos. “Nos últimos meses, vimos um processo preocupante de demissões
no setor. Muitas dessas companhias, que atuam em diversos segmentos, estão
recalculando suas rotas para minimizar riscos. Nesse contexto, o Nordeste é a
região que mais perde, apesar de possuir o maior potencial natural de geração
eólica e solar do país. O risco real é que assistamos a uma migração de
investimentos estratégicos que deveriam estar consolidando o Nordeste como o
centro da nossa transição energética”, destaca.
Para o presidente da Comissão Temática de Energias
Renováveis da Fiern (Coere), Sérgio Azevedo, a suspensão dos investimentos
anunciados pelo setor é um sinal claro de perda de competitividade de uma
região que sempre teve vocação natural para liderar a transição energética
brasileira.
“O problema é que vocação, sozinha, não basta. É preciso
ambiente regulatório adequado, capacidade de resposta do sistema,
previsibilidade e visão estratégica”, aponta Sérgio Azevedo, acrescentando que
para o RN, o impacto potencial é relevante: “adiamento ou cancelamento de novos
parques, migração de capital para mercados com menor risco sistêmico, perda de
competitividade da cadeia produtiva local, redução da geração de empregos,
enfraquecimento da arrecadação e perda de protagonismo de um estado que reúne
condições naturais excepcionais para produzir energia limpa. Em outras
palavras, o RN corre o risco de deixar de capturar a próxima onda de
investimentos justamente por não conseguir transformar sua vocação em segurança
para o investidor”, declara.
Setor aponta problemas em
marco regulatório
O debate sobre a insegurança para investir no setor de
energias renováveis se une às discussões sobre regulamentações para assegurar
maior confiança aos investidores no setor. Em novembro do ano passado, o
governo sancionou a Lei nº 15.269, com o objetivo de modernizar o marco
regulatório do setor elétrico e estabelecer novas diretrizes para ampliar a
segurança energética, a acessibilidade tarifária e introduzir mecanismos mais
eficientes de operação do sistema.
Francisco Silva, da ABEEólica, aponta que a legislação
federal passou a atribuir uma série de responsabilidades para os geradores de
energias renováveis, prejudicando potenciais projetos e outros já em operação
ou desenvolvimento. Ele observa, no entanto, que o marco também traz aspectos
positivos do ponto de vista dos cortes de geração.
“A lei trouxe a necessidade de um endereçamento para os
cortes de geração, pois qualificou quais os cortes que o legislador entende que
os geradores têm ou não direito a receber. Agora nós estamos na expectativa do
Ministério de Minas e Energia regulamentar esses cortes para que consigamos
voltar a ter previsibilidade sobre os investimentos”, aponta.
O presidente da Coere/Fiern, Sérgio Azevedo, afirma que a
Lei nº 15.269/2025 foi um avanço importante, pois moderniza o marco regulatório
do setor elétrico, cria bases legais para o armazenamento de energia e abre
caminho para sua regulamentação e expansão no país. No entanto, na avaliação
dele, é preciso que haja uma regulamentação célere e eficaz para transformar a
diretriz legal em mercado real.
“Além disso, é fundamental que a implementação dos
incentivos ao armazenamento prestigie a lógica da adicionalidade, ou seja, que
estimule capacidade nova, flexibilidade nova e, sempre que possível, soluções
conectadas à expansão de novos parques eólicos e solares”, afirma.
“O Brasil precisa evitar soluções que apenas redistribuam
energia já existente no sistema sem atacar a raiz do problema. O armazenamento
deve ser tratado como instrumento para destravar investimento novo, reduzir o
curtailment e recompor a atratividade das regiões mais afetadas, especialmente
o Nordeste”, acrescenta Azevedo.
Empresas mantêm interesse no
RN e Nordeste
Apesar das incertezas que rondam o setor de renováveis,
empresas que atuam no RN reiteram que mantêm o interesse em seguir no Nordeste.
Em resposta à reportagem da TRIBUNA DO NORTE, a Casa dos Ventos destacou que
segue na contramão do mercado. A empresa tinha sido apontada pela reportagem do
Valor Econômico como uma das desistentes, mas a informação foi corrigida pelo
veículo.
“A Casa dos Ventos mantém um pipeline robusto e segue
investindo em ativos para geração de energia renovável tanto no Nordeste quanto
em outras geografias. São investimentos que impulsionam não apenas a expansão
da companhia, mas também a retomada do setor, movimentando a cadeia produtiva e
gerando empregos nessas regiões”, disse.
A Vestas, que atualmente conta com o Parque Esquina do
Vento em desenvolvimento no RN, também reiterou o interesse em manter ativos no
Estado e no Nordeste. “Temos uma presença sólida no Brasil, com ativos
relevantes como a fábrica de alta tecnologia no Ceará, o hub regional de
serviços no Rio Grande do Norte e uma cadeia de suprimentos robusta, com mais
de 100 fornecedores”, destacou
A companhia reconhece, contudo, que o setor enfrenta desafios estruturais e precisa evoluir destravar novos investimentos. “Apesar de o Brasil contar com um dos melhores recursos eólicos do mundo — especialmente no Nordeste — há um risco real de perda de protagonismo, caso ajustes relevantes não sejam realizados. Nesse contexto, a Vestas mantém um diálogo contínuo e construtivo com o governo brasileiro, com uma postura propositiva para contribuir com a superação dos desafios atuais do setor”, apontou.
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