Por Marcelo Tognozzi
Colunista do Poder360
Quando tinha três anos de idade, Giorgia Meloni e a irmã
Ariana, de quatro anos, brincavam com fósforos escondidas da mama Ana. Acabaram
botando fogo na casa. Uma tragédia. A família perdeu tudo. Foram morar em
Garbatella, bairro de classe média baixa na periferia de Roma. Quando Giorgia
tinha 11 anos, seu pai Francesco abandonou a família e foi viver com uma
espanhola nas Ilhas Canárias. Ela e a irmã nunca mais o veriam.
A vida da primeira-ministra da Itália, que na
quinta-feira (15) completou 49 anos, tem sido desde sempre uma sucessão de
desafios. Esta baixinha feroz e invocada aprendeu a lutar sozinha e faz
política desde os 15 anos, quando entrou para a ala direita do movimento
estudantil. Começou a trabalhar cedo, primeiro como babá, depois garçonete da
casa noturna do Roma Piper Club. Assim, ela conseguiu ajudar nas contas da casa
e pagar seus estudos.
Neste sábado (17), quando o acordo Mercosul-União
Europeia será finalmente assinado, Giorgia Meloni, mesmo ausente, será
protagonista. A primeira-ministra da Itália, única mulher até hoje a sentar
naquela cadeira, adiou a assinatura do acordo de caso pensado, tirando de Lula
a oportunidade de aparecer presidindo a cerimônia de assinatura do acordo.
Meloni é de direita. Não a direita radical, fascista,
embora tentem a todo tempo carimbá-la como tal. É uma versão italiana de
Margaret Thatcher, a dama de ferro que colocou a Inglaterra nos trilhos. Meloni
é hoje a principal líder da direita europeia, muito mais pelos seus méritos e
pelo talento de negociadora.
Ela soube se posicionar, quando em dezembro anunciou que
ainda tinha dúvidas sobre o acordo e conseguiu arrancar 45 bilhões de euros
(quase R$ 300 bilhões) para os agricultores italianos prometidos pela
presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen. Meloni e Von der Leyen
falam a mesma língua na política. E nenhuma delas morre de amores por Lula e
seus aliados da esquerda europeia.
A atitude de Meloni, ao garantir para o Paraguai do
conservador Santiago Peña os holofotes da assinatura do acordo, acabou expondo
o presidente francês Emmanuel Macron, depois de a França liderar manobras
frustradas para melar o acordo.
Nos últimos anos, Macron manteve com Lula uma relação
quase íntima, recheada de mesuras e trocas e afagos, abrindo caminho para a
venda de helicópteros militares franceses para nossas Forças Armadas y otras
cositas más. Mas, na hora de fazer valer a amizade, prevaleceu o interesse da
falida agropecuária francesa, que hoje não consegue sequer abastecer seu
mercado interno com manteiga. Nem um “ne me quitte pas” Lula poderá pedir a
Macron, que o abandonou à própria sorte.
Meloni é da nova safra de políticos europeus, de uma nova
direita que surge com propostas sedutoras de mais empregos, menos imigração e
uma diplomacia pró Ocidente. Segue a mesma linha das políticas espanholas
Isabel Díaz Ayuso (PP), presidente da Comunidade de Madrid, e Cayetana Álvarez
de Toledo, deputada pelo PP, filha de marquês, carismática e boa de palanque.
As duas têm movimentado a política espanhola, enfrentando
a esquerda como opositoras do primeiro-ministro Pedro Sánchez (Psoe). Ayuso é
campeã de votos e na última eleição derrotou o Psoe em redutos tradicionais da
esquerda.
Em setembro de 2016, Giorgia deu à luz Ginevra. Ela
anunciou o nascimento da filha num post emocionado nas redes sociais,
comemorando a chegada da irmãzinha da Itália, numa referência ao seu partido
Fratelli d’Italia (Irmãos da Itália), fundado por ela e cujo nome veio do hino
nacional italiano. Nesta época, já era uma política experiente. Teve um
casamento de uma década com o jornalista Andrea Giambruno, de quem se separou
em 2023. Giambruno, deslumbrado com a ascensão da mulher ao poder, acabou se
expondo com comportamentos inconvenientes.
Iniciou a carreira aos 21 anos, em 1998, elegendo-se
vereadora em Roma. Em 2006, chegou pela primeira vez ao Parlamento italiano e
dois anos depois, com 31 anos, era nomeada ministra da Juventude por Silvio
Berlusconi. Ficou no ministério até 2011. Em 2016, disputou a eleição para a
prefeitura de Roma contra o candidato de Berlusconi, agora seu adversário
político.
A baixinha, dona de um par de olhos azuis faiscantes, se
mostrou “imparável” e começou a ser percebida como a grande novidade da
política italiana. Em 2018, voltou ao Parlamento e, em 2019, fez um discurso
que rendeu muitos votos, marcando sua posição.
“Somos pessoas, não códigos, e vamos defender nossa
identidade. Eu sou Giorgia: sou mulher, sou mãe, sou italiana, sou cristã […].
Tenho vergonha de um Estado que nada faz pelas famílias italianas. Tenho
vergonha de um Estado que defende os direitos dos homossexuais. Um Estado justo
cuida dos mais fracos, daqueles que não podem defender-se“, disse a
primeira-ministra italiana.
Em outubro de 2022, Meloni assumiu o cargo de
primeira-ministra da Itália. Berlusconi tentou bombardear, chamando-a de
arrogante e condescendente. Não colou. Depois, Berlusconi tentou barrar a
candidatura de Ignazio La Russa, aliado de Meloni, a presidente do Senado, e
foi derrotado. La Russa venceu com 116 votos dos 206 senadores. Berlusconi
morreria meses depois, em junho de 2023, levando com ele o passado e abrindo
caminho para a consolidação da nova direita italiana.
Giorgia Meloni, mãe solteira, cristã e conservadora, primeira mulher a comandar a Itália, aquela que aos três anos incendiou a própria casa, agora cuida do lar de 59 milhões de italianos. Ela é um dos símbolos do poder neste século 21.